Campanha Anti-Plágio

Pamela Chris

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Conto - Lua de Prata

Boa tarde! Primeiramente eu quero desejar um feliz dia do escritor. Estou adorando ver as homenagens no Face, e fico muito agradecida por todos os elogios que li. Vocês são incríveis. Aliás, o que seria dos escritores sem os seus leitores?
Bem, dessa vez vou deixar um conto sobrenatural para vocês degustarem um pouco, rsrs. Uma história que eu estava pensando em transformar em livro, mas ainda não tive muito desenvolvimento, então por enquanto fica só como uma ideia.
Espero que gostem ;)



Desço do carro para encarar a noite escura e gelada. Os sons, antes tão familiares, invadem meus ouvidos sensíveis e o vento forte balança levemente meus cabelos agora espessos e prateados.
— Ei — Uivo da Noite me chama do volante.
Olho para ele, para seus cabelos escuros e olhos imensamente verdes. Tem a pele morena, bronzeada, músculos firmes e uma barba grossa por fazer, dando-lhe uma aparência muito sexy.
Suspirei internamente, pois nada daquilo me chama a atenção. Não que eu precise amá-lo, não há nada que nos obrigue a ficar juntos. Mas o buraco no meu peito está sendo tão cruel que eu quero preenchê-lo com qualquer um.
Infelizmente ou não, meu coração pertence a apenas uma pessoa. Somente ele pode preencher aquele vazio.
— Não se esqueça que o imbecil fugiu do hospital antes que fosse avisado.
Eu sei disso. Ainda assim me lembrar que o rapaz que vou buscar de nada sabia... Não vai ser nada agradável.
Aliá, como eu me meti naquilo?
Olhar para a noite faz minha mente voltar há seis meses atrás, quando o inferno começou. Era para ser apenas um passeio com meu namorado, próxima a uma mata fechada. Em minhas mãos estava um suculento pastel (minha fome era grande) e eu ria de alguma coisa que Gabriel tinha dito. Sua boca estava suja na lateral de catupiry e antes dele me fazer rir eu estava lhe dando uma bronca por usar uma camisa do flamengo. Eu era vascaína roxa.
Hoje em dia essas coisas não importam mais.
No exato momento em que eu me distraí, naquela tarde de verão, ouvi algo como um latido. Sim, seria um latido se fosse um cachorro. Mas não era.
O lobo, mais magro do que devia ser, pulou no meu braço, tentando abocanhar o pastel. Na hora eu gritei, tão alto que era como se tivessem me matando. A adrenalina, por algum motivo, me impediu de fugir e eu levantei o braço com o salgado para o alto, o outro usei para me proteger. Gabriel gritou algo que eu não me lembro, mas estava com medo.
Não com medo do que o lobo poderia fazer com ele. Estava com medo do que poderia acontecer comigo. Minha mente recorda que ele também tentou afastar o lobo com um chute, porém o instinto do animal era maior. De olho no salgado para lhe satisfazer ele abocanhou meu punho numa tentativa para me fazer largar o pastel.
Funcionou. O salgado caiu da minha mão quando a usei para amparar meu pulso sangrando, meu namorado fazendo perguntas que meus ouvidos não captaram. Não vi quando o lobo saiu de perto, mas devia ter voltado para a floresta.
Depois telefonemas, amparos, uma ambulância e antes que eu desse conta estava na cama de um hospital.
Ao contrário do que muitos livros falavam, ou da maneira como era repassado em filmes e novelas, assim que abri os olhos não me senti confusa. Lembrava-se perfeitamente do lobo mordendo meu pulso, o sangue jorrando como se tivesse sido arrebentada uma veia, algo eletrizante correndo por minha corrente sanguínea e tudo ficando preto.
Por isso, quando acordei no hospital, não me perguntei onde estava e nem o que tinha acontecido. Olhando para meu pulso enfaixado tudo o que vinha à minha mente era por que havia sido tão sério. Quero dizer, tinha sido apenas uma mordida?
— Mô — suspirou Gabriel no segundo seguinte em que abri os olhos, depois de olhar confusa para o meu pulso. — Tá tudo bem?
A pergunta era tola, claro, para alguém que estava no hospital, porque não estava tudo bem. Porém, mesmo aparentemente idiota, ela resumia tudo o que meu namorado sentia naquele momento: preocupação, alívio, ansiedade. Amor. Sorri para ele, para mostrar que não estava tão ruim. Ele apertou minha mão, naquela atitude clara de que sempre estaria comigo.
Mas eu não estaria com ele.
Caminho meus primeiros passos, o vento frio castigando a minha pele. Sei que é psicológico, pois se há algo que não me incomoda mais é a noite, nem o que ela traz consigo.
Exceto o medo, o temor do que estava nas sombras. Não nas sombras, literalmente, mas no que o futuro ocultava.
Ah, Gabriel, sinto tanto a sua falta! Como uma faca cega dilacerando minha alma, um pedaço dela chorando para encontrar o seu lugar.
Naquele dia Gabriel me explicou, da maneira mais sincera que pôde para não me assustar. O lobo tinha mordido meu pulso com força, fazendo um corte na veia. Por isso todo aquele sangue, e eu perdi muito. Se não fosse pela ação rápida e racional de Gabriel em ligar por ajuda, e seu curso de primeiros socorros, bem, eu não estaria viva.
Por isso, acreditando ter chegado muito perto da morte, tudo o que eu queria era tê-lo ao meu lado, ver meus pais, falar com meus amigos... Enfim, aproveitar a vida novamente.
Então o médico entrou.
E se, no dia em que Uivo me buscou eu fiquei assustada, não quero nem ter ideia de como vai ser para aquele novo rapaz. Bem, de uma coisa eu posso ter a mais absoluta certeza: não vai acabar nada bem.
Sinto um deja vú ao observar as luzes, os jovens de um lado e de outro, alguns olhares na minha direção.
“Você foi mordida na lua cheia. Agora não é mais humana. Por isso a Sombra do Luar irá te buscar hoje. Não tenha medo e vá com eles.”
Eu disse ao Gabriel que estava bem o suficiente para ir à festa naquela noite, mesmo com meu pulso enfaixado. Lembro de que queria esquecer as palavras do médico, faladas à sós, e no fundo estava me escondendo de seja lá quem fosse me buscar.
Como boa atriz que eu sou, consegui convencê-lo. E fazendo jus à cidade pequena em que eu morava, todos na festa sabiam o que tinha acontecido e olhavam para mim, às vezes cochichando com os outros, às vezes desviando os olhos.
No curto momento em que me senti incomodada passei as mãos pelos meus cabelos ralos e cacheados e um arrepio atingiu minha pele.
Por toda a minha vida (pelo menos o que ela era há seis meses atrás) eu odiei meu cabelo. Ele era completamente negro, cacheado e muito, muito ralo. Chegava a pensar que um dia ficaria careca, de tão ralo que meu cabelo era. Sempre me olhava no espelho decepcionada, pois se usasse seco ficaria armado. Se usasse molhado todos iriam perguntar se eu estava careca. Por fim passei a usá-lo sempre seco e muito bem preso.
Quando eu passei a mão pelos cabelos naquela festa os senti mais cheios do que devia ser. Não muito para que alguém percebesse, mas o suficiente para me apavorar. Pois aquela era uma das provas que o médico havia falado do que iria acontecer. Uma prova de que eu estava mesmo contaminada.
Tinha falado também que provavelmente a cor do meu cabelo iria mudar, mas na época não acreditei. Olho para meu ombro, observo meus cachos cinzas. O médico tinha razão.
— Tá mesmo tudo bem? — Gabriel voltou a me perguntar pela enésima vez.
Ignorando o enjoou em meu estômago, eu afirmei com a cabeça, sorrindo convincentemente para ele. Ele me deu um beijo nos lábios e pareceu mais aliviado.
Perscruto com os olhos o rapaz que havia sido mordido naquela manhã, e me pergunto porque raios de motivo ele havia fugido do hospital. Se ele pelo menos tivesse ouvido o médico sobre a Sombra do Luar...
Não demoro em detectar o cheiro, típico dos nossos, e não reconheço como os que iam à escola. Só pode ser nosso rapaz. O olfato me leva à um jovem do meu tamanho, não muito baixo mas também não muito alto, de cabelos castanhos e pele clara demais, até frágil. Franzo os olhos e inspiro novamente. O cheiro me atinge junto com uma lufada de vento e tenho a certeza de que é ele.
Enquanto caminho decidida naquela direção, minha mente novamente volta àquela noite.
Eu e meu namorado estávamos numa roda de amigos, conversando feliz. Eles até, educadamente, não fizeram perguntas do que tinha acontecido. Sabiam que tudo aquilo estava me incomodando demais, por causa dos olhares.
Até hoje não lembro o que me fez olhar para o lado. Talvez a audição já sensível, talvez sentir outro cheiro bem parecido com o que minha pele emanava. Só sei que, quando olhei para o lado, Uivo vinha em minha direção, tudo nele fazendo meu corpo tremer.
Ninguém reparou nele até que agarrou meu braço. Seu aperto era firme, sem machucar, e forte, sem ferir.
— Eu sou Uivo da Noite, da Sombra do Luar, e estou aqui para te levar. Venha comigo.
Sem esperar resposta ele me puxou forte e determinado, dando as costas para o grupo surpreso.
O caminho até o carro foi um borrão. Gabriel tinha gritado atrás de mim, corrido. Acho que Uivo da Noite correu comigo, mais rápido do que seria possível, porque eu me lembro de ter entrado no carro ofegante e chorando.
No curto espaço de tempo em que as portas se fecharam e aceleraram com o carro eu fiquei olhando para Gabriel, correndo atrás de mim desesperado. Eu chorei, solucei, pensando se tinha feito a coisa certa indo com o estranho. E se sim, o que seria da minha vida dali para a frente.
De uma coisa eu tive certeza naquele momento, assim como tenho certeza agora. Nunca voltaria a ver o homem da minha vida.
Ando mais rápido pelo caminho que o novo lobo seguiu. Era necessário, pois era noite de lua cheia. E em noites como aquelas os novos lobos eram instáveis. Por isso a urgência em buscá-los antes da meia-noite, quando a lua estava bem alta no céu. Porque eles poderia se transformar involuntariamente a qualquer momento.
A casa em que ele entrou está mais lotada e bastante quente. De início me incomodo com a mudança repentina, mas rapidamente me acostumo. Sinto novamente o cheiro dele e esquadrinho com o olhar.
O encontro não muito longe de mim, conversando com uma garota. Seu braço treme um pouco, o que me alerta para ser mais rápida ainda. É o primeiro sinal de que está prestes a se transformar.
Novamente vou decidida na direção dele, mas hesito quando meus olhos vão um pouco mais longe.
Ao fundo da casa, conversando com um casal, está Gabriel. Meu coração imediatamente dá um pulo. Gabriel!
Balanço a cabeça, voltando à missão. O rapaz. Prestes a se transformar. Eu tinha que buscá-lo. Agora.
Gabriel não devia ter me visto, e se viu não reconheceu. Meus cabelos estão tão diferentes... Então não poderia atrapalhar a missão.
É nisso o que eu acredito quando agarro o braço do rapaz, forte e firme o bastante para que ele não se soltasse, o suficiente para não machucá-lo. E sob o prelúdio das palavras ritualísticas eu soube exatamente que tudo daria errado.
Gabriel podia não reconhecer meus cabelos. Mas certamente reconheceria a minha voz.
— Eu sou Lua de Prata, da Sombra do Luar — informei, a casa ficando silenciosa de repente. — Venha comigo.
Começo a puxá-lo, aliviada por Gabriel não me chamar e o rapaz não tentar fugir.
Mal pensei ambos ocorreu. Não na mesma ordem.
— Me solta! — berrou o novo lobo, me puxando de volta. — Quem é você, sua louca? Anda, me solta.
Confesso que me surpreendi com sua força recém adquirida, ainda que eu seja mais forte que ele, pois não sou mais uma novata. Ainda assim tenho certa dificuldade, principalmente com as pessoas que estavam começando a formar uma roda à nossa volta.
— Dri? — ouço a voz de Gabriel, e sob meu apelido carinhoso meu coração se revolve.
Mordo os lábios, tentando afastar do meu coração a saudade para me concentrar no dever, e volto a puxar o rapaz rebelde. Rápido o suficiente para sair daquela casa e entrar novamente na noite fria.
— Dri! — o chamado de Gabriel se torna mais forte enquanto o jovem tenta se desvencilhar de mim mais eficazmente. — O que está fazendo?
Um ofego, um suspiro, e num flash meus olhos o visualizam mais uma vez: cabelos castanhos muito claro, quase loiros, lisos como de um militar, olhos cinzas naquela iluminação e boca semi-aberta pela surpresa e choque.
— Me larga! — o jovem gritou novamente, se contorcendo violentamente e tremendo mais do que nunca.
Maldição, ele iria se transformar. E na frente de todo mundo!
— Uivo! — gritei desesperada.
Minha primeira busca e tudo já dando muito errado.
Uma porta do carro bateu e passos de uma corrida alcançaram facilmente os meus ouvidos.
— Não! — Gabriel grita.
Devia estar vendo Uivo. Devia lembrar que foi ele quem me levou.
Algumas pessoas correm para socorrer o jovem, que treme cada vez mais. Uivo não demora para chegar à mim, e nós dois puxamos o garoto.
— Por quê? — Gabriel pergunta, segurando o meu braço.
Seu toque lança um calafrio quente por minha pele, por meu sangue. Naquele momento eu penso em largar o jovem, desistir de tudo, beijar meu namorado e dizer que tudo iria ficar bem.
— Continue na pele — a voz do nosso líder me fez sair dos sonhos.
Não podia mais viver como humana, como se eu não me transformasse em lobo, como se isso não fosse inevitável na hora em que a lua estava bem alta ao céu. Não podia mais ter uma vida normal.
E, o pior, Gabriel nunca aceitaria o que me tornei.
Um ganido lupino sai da garganta do jovem, espantando alguns que o segurava. Eu e Uivo nos aproveitamos para puxá-lo para mais perto do carro, para mais longe da multidão. Não é difícil, fisicamente falando, me desvencilhar de Gabriel.
— O que está acontecendo, Dri? — ele pergunta novamente.
Tenta puxar meu braço, tocar-me de novo, mas eu me esquivo. Se eu apenas sentisse a pele dele contra a minha novamente... Poria tudo a perder.
— Ei! — alguém da multidão grita, se aventurando em puxar o novo lobo com ele.
Basta que Uivo arreganhe os dentes, fazendo o som peculiar que afasta qualquer coisa que tenha instinto de sobrevivência. Vejo as pessoas surpresas, e até Gabriel fica assustado. Isso dá um aperto em meu coração, afastando qualquer vestígio de que um dia poderia me aceitar.
Continuamos puxando o jovem, que tremia cada vez mais. O vento gelado continua a sondar nossas peles, mas a adrenalina nos impede de sentir o frio. Usamos toda a força para obrigar o rapaz em meio a gritos, uivos e muito tremor.
Quando chegamos ao carro, em meio à muita confusão, eu já consigo sentir os primeiros pelos lupinos debaixo da minha mão. A multidão ainda estava em volta, Gabriel corre na nossa direção como na última vez em que o vi.
Como na última vez a porta é fechada, impedindo que qualquer um visse o lobo agitado dentro do carro, em que Patas Velozes tenta controlar quase sem sucesso.
Como na última vez Gabriel tem a mesma expressão desesperada de impotência.
E como na última vez eu choro ao me ver cada vez mais longe dele, dessa vez tendo a certeza de que nunca mais o veria.


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